As palavras estão no centro de tudo o que se aprende, se ensina e se comunica. Elas não apenas nomeiam o mundo, mas organizam o pensamento, orientam a compreensão dos conceitos e influenciam diretamente a forma como a realidade é interpretada. Quando o vocabulário é limitado ou utilizado de modo automático, o pensamento tende à superficialidade; quando é ampliado e compreendido em profundidade, favorece a clareza, o senso crítico e a autonomia intelectual.
Nesse sentido, o estudo consciente das palavras, seus significados, origens, usos e relações fortalece a aprendizagem em todas as áreas do conhecimento. Dicionários, glossários e léxicos deixam de ser meros instrumentos de consulta pontual e passam a atuar como verdadeiras ferramentas de formação cognitiva, pois refinam a linguagem, o raciocínio e a capacidade de elaborar ideias com maior precisão e intencionalidade.
Do ponto de vista da neurociência, esse processo ganha ainda mais relevância. Aprender palavras novas e estabelecer relações entre conceitos estimula a neuroplasticidade, isto é, a capacidade do cérebro de formar e reorganizar conexões sinápticas. Pesquisas indicam que atividades cognitivamente desafiadoras, como a ampliação vocabular e o contato com estruturas linguísticas complexas, ativam múltiplas áreas cerebrais e fortalecem redes neurais, de modo semelhante ao aprendizado de uma nova habilidade. Aprender palavras, nesse contexto, é também aprender a pensar de forma mais elaborada.
É a partir dessa compreensão que a leitura de dicionários, não apenas como consulta ocasional, mas como prática contínua, se revela um exercício cognitivo consistente. Ler definições, etimologias e relações semânticas alimenta o pensamento, estimula associações mentais mais complexas e favorece a formação de novas sinapses, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo ao longo da vida.
Embora os recursos digitais ofereçam praticidade e acesso imediato, a experiência do livro físico preserva uma dimensão sensorial e temporal que favorece a atenção prolongada, a reflexão e a imersão intelectual. Sempre tive sede de conhecimento e encontrei, ao longo do tempo, nas bibliotecas, espaços especialmente propícios ao pensamento, ambientes silenciosos, organizados e acolhedores, que favorecem a concentração e o aprofundamento cognitivo. Essa vivência inspirou a criação, também em casa, de um espaço semelhante: um pequeno oásis dedicado à leitura, à reflexão e à cognição. Criar ambientes organizados e intencionalmente voltados ao estudo não é apenas uma escolha estética, mas uma estratégia cognitiva fundamental para sustentar o tempo, a qualidade da atenção e o desenvolvimento do pensamento.
Questionamentos:
Você já experimentou ler um dicionário do início ao fim como exercício cognitivo, ou costuma consultá-lo apenas quando surge uma dúvida?
Como você percebe o funcionamento do seu pensamento enquanto aprende uma palavra nova: por associação, por imagem, por repetição ou por reflexão consciente?
Quais estratégias mentais você utiliza para transformar uma palavra desconhecida em compreensão real e não apenas em memória momentânea?
Ao estudar um conceito novo, você observa se sua forma de pensar se amplia ou apenas se adapta ao vocabulário já conhecido?
Em que ambiente você aprende melhor numa biblioteca, no espaço de leitura que criou para si ou no acesso digital e de que forma você interage com o livro: apenas lendo ou dialogando com o texto por meio de anotações, marcas e reflexões?
Referências:
WOLF, Maryanne. O cérebro leitor. Tradução de Alcebiades Diniz Miguel. São Paulo: Contexto, 2024.
SCHLOSSER, Ulisses. Dicionário Neológico de Parafenomenologia. Foz do Iguaçu: Editares, 2021
VIEIRA, Waldo. Léxico de Ortopensatas. Volume I, II. Foz do Iguaçu: Editares, 2014. pág. 971
Vídeo: As incríveis formas como a leitura molda o cérebro. BBC News Brasil
