A superdotação sob diferentes olhares profissionais

Por que a identificação muda conforme quem observa?

A superdotação não é um fenômeno simples, linear ou uniforme. Ela se manifesta de formas diversas, em ritmos próprios e atravessa dimensões cognitivas, emocionais, criativas, sociais — e, em alguns casos, perceptivas ampliadas. Por isso, a identificação da superdotação varia significativamente de acordo com a formação, o referencial teórico e os instrumentos utilizados por cada profissional.

Compreender essas diferenças é fundamental para evitar reducionismos, diagnósticos equivocados ou a invisibilização de potenciais não convencionais.

O que muda não é a pessoa — é o olhar.


Pedagogos: o olhar da aprendizagem escolar

O pedagogo costuma ser o primeiro profissional a perceber sinais de altas habilidades/superdotação, pois acompanha o estudante no cotidiano da sala de aula.

Identificação baseada em:

  • Ritmo acelerado de aprendizagem
  • Curiosidade intensa
  • Autonomia intelectual
  • Criatividade nas atividades escolares

Potencial:
Reconhece rapidamente o aluno que aprende além da média.

Limite:
Pode associar superdotação apenas a alto rendimento escolar, deixando de perceber alunos desmotivados, camuflados ou com dupla excepcionalidade.

Documento que costuma emitir:

  • Parecer pedagógico
  • Relatório descritivo pedagógico
  • Registro de observação escolar
  • Encaminhamento para avaliação especializada

Esses documentos não configuram diagnóstico, mas são fundamentais como evidência inicial.

➡️ Atua como porta de entrada da identificação.


Psicólogos: o olhar do funcionamento psíquico

O psicólogo investiga os aspectos cognitivos e emocionais envolvidos no desenvolvimento do indivíduo.

Identificação baseada em:

  • Testes de inteligência
  • Entrevistas clínicas
  • Avaliação emocional e comportamental

Potencial:
Compreende assincronias, hipersensibilidade, ansiedade e perfeccionismo.

Limite:
Quando não especializado, pode reduzir superdotação a alto QI, desconsiderando criatividade e contexto.

Documento que costuma emitir:

  • Laudo psicológico (quando há avaliação formal)
  • Relatório psicológico
  • Parecer psicológico
  • Declaração de acompanhamento psicológico

O laudo psicológico tem validade técnica e pode subsidiar adaptações educacionais, mas não substitui avaliação educacional especializada em AH/SD.

➡️ Atua na compreensão emocional e cognitiva.


Neuropsicólogos: o olhar neurocognitivo

O neuropsicólogo analisa o funcionamento cerebral e os processos cognitivos superiores.

Identificação baseada em:

  • Avaliação de memória, atenção, linguagem
  • Funções executivas
  • Diagnóstico diferencial (TDAH, TEA, dislexia)

Potencial:
Diferencia altas habilidades/superdotação de transtornos e identifica perfis cognitivos complexos.

Limite:
Foco clínico pode deixar de lado fatores pedagógicos, criativos e existenciais.

Documento que costuma emitir:

  • Laudo neuropsicológico
  • Relatório neuropsicológico detalhado
  • Parecer técnico para diagnóstico diferencial

É um dos documentos mais robustos do ponto de vista técnico, especialmente para diferenciar AH/SD de transtornos do neurodesenvolvimento.

➡️ Atua no aprofundamento técnico e diagnóstico diferencial.


Neuropedagogos: o olhar entre cérebro e aprendizagem

A neuropedagogia busca compreender como o cérebro aprende, traduzindo isso em práticas educativas.

Identificação baseada em:

  • Estratégias cognitivas utilizadas pelo estudante
  • Metacognição precoce
  • Aprendizagem não linear

Potencial:
Integra neurociência e educação, favorecendo intervenções pedagógicas eficazes.

Limite:
Formação ainda heterogênea e pouca padronização de instrumentos.

Documento que costuma emitir:

  • Relatório neuropedagógico
  • Parecer educacional neurofuncional
  • Plano de intervenção pedagógica

Não emite diagnóstico clínico, mas contribui diretamente para o planejamento educacional.

➡️ Atua na ponte entre ciência e sala de aula.


Especialistas em Altas habilidades/Superdotação: o olhar integral

O especialista em superdotação compreende o fenômeno como multidimensional e processual.

Identificação baseada em:

  • Modelos teóricos (Renzulli, Gardner, Gagné, Sternberg)
  • Observação longitudinal
  • Contexto cultural, familiar e escolar

Potencial:
Reconhece talentos não óbvios, criatividade, liderança, envolvimento com a tarefa, dupla excepcionalidade e superdotação adulta.

Limite:
Poucos profissionais e pouco reconhecimento institucional.

Documento que costuma emitir:

  • Parecer técnico especializado em AH/SD
  • Relatório multidimensional de identificação
  • Plano Educacional Individualizado (PEI/PAEE)
  • Documento de identificação educacional em AH/SD

Esse conjunto de documentos é o mais alinhado às políticas públicas educacionais e ao atendimento educacional especializado.

➡️ Atua na identificação mais ética, profunda e contextualizada.


Uma síntese necessária

A superdotação não cabe em um único teste, área ou profissão. Ela emerge quando diferentes olhares dialogam.

Identificar superdotação é menos rotular e mais compreender potencial humano em desenvolvimento.

Referências:

VIRGOLIM. A.M.R.; KONKIEWITZ, E.C.. (orgs.). Altas habilidades/superdotação, inteligência e criatividade: Uma visão multidisciplinar. Campinas: Papirus

RENZULLI, Joseph; REIS, Sally. The three-ring concepcion of giftedness: a devellopmental model for creative productivity. The triad reader. Connecticut: Creative Learning Press, 1986.