Filme - A Chegada (Arrival)
Ano: 2016
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer baseada no conto de Ted Chiang
Duração: 116 minutos
Classificação:10 anos
Gênero : Drama, Ficção Científica, Mistério, Thriller
Países de Origem: Canadá e EUA
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner e Forest Whitaker
Ao abordar o tema dos extraterrestres, parto da ideia de que a questão central talvez não seja se eles existem, mas quando e de que forma poderão se revelar à humanidade. Quem assistiu à série documental Top Secret: OVNIs (Netflix, 2021) reconhece essa provocação. A produção investiga evidências, documentos vazados e relatos oficiais sobre fenômenos aéreos não identificados, incluindo casos brasileiros como a Operação Prato, além de discutir possíveis encobrimentos governamentais e tecnologias de engenharia reversa.
Mais do que afirmar ou negar a existência de vida fora da Terra, utilizo essas reflexões como ponto de partida para analisar o filme A Chegada. Considero essa obra uma das melhores produções já realizadas sobre vida alienígena, ao lado de Interestelar, igualmente magnífico.
Em meio a tantas produções sobre o tema, A Chegada se destaca por sua originalidade e conduz o espectador a uma experiência que vai além do entretenimento, convidando-o a refletir sobre o papel da linguagem, do conhecimento e da consciência na forma como a humanidade se relaciona com o desconhecido, mostrando como a compreensão do “outro” pode transformar profundamente nossa percepção da realidade e de nós mesmos.
⚠️ Aviso de Spoiler
A partir deste ponto, o texto contém algumas revelações sobre o filme. Caso ainda não tenha assistido, evite continuar a leitura.
A Linguagem como Tecnologia de Sobrevivência
Se você pudesse ver toda a sua vida, do início ao fim, mudaria alguma coisa? Essa é a pergunta que ecoa ao longo de A Chegada e que continuou ressoando em mim muito depois do filme terminar. Ao acompanhar a trajetória da Dra. Louise Banks, somos convidados a repensar a forma como compreendemos o futuro, o sofrimento, o amor e a responsabilidade humana.
No filme, a linguagem deixa de ser apenas um meio de comunicação e passa a ocupar o estatuto de tecnologia fundamental para a sobrevivência da humanidade. Inicialmente, Louise é convocada pelos militares para analisar os sons emitidos pelos seres interplanetários, sob a suposição de que se trataria de uma “voz” a ser decifrada. No entanto, é a própria linguista quem identifica o equívoco dessa abordagem: não é possível traduzir uma mensagem sem antes estabelecer um sistema comum de comunicação. Ela compreende que a linguagem não pode ser imposta nem deduzida de forma isolada, pois o sentido só se constrói na relação, no diálogo e na experiência vivida entre os interlocutores.
Durante suas visitas à espaçonave, Louise inicia o ensino da linguagem humana aos extraterrestres. Esse processo não ocorre como uma simples tradução, mas como a criação gradual de uma base comum de significação. Pela primeira vez, humanos e alienígenas passam a compartilhar referências simbólicas. A partir dessa construção conjunta, os seres conhecidos como Heptapods começam a emitir códigos visuais circulares, que funcionam como uma forma complexa de escrita e pensamento. Esses símbolos inauguram um verdadeiro diálogo intercultural, no qual linguagem, tempo e consciência se articulam.
Assim, o filme mostra que a comunicação não é apenas transmissão de informações, mas um processo profundo de construção de sentido, capaz de transformar a forma como os sujeitos percebem o mundo e a si mesmos.
O que se revela, então, ultrapassa o campo da tradução: trata-se de uma nova forma de perceber o tempo, o futuro e as possibilidades de ação humana. A obra propõe, assim, uma reflexão profunda sobre o poder da linguagem tão decisiva quanto a ciência especialmente em contextos de guerra, crise global e tomada de decisões irreversíveis.
Linguagem, Poder e Conflito
Ao longo da história humana, a linguagem sempre foi uma arma estratégica. Guerras não se iniciam apenas com armas, mas com discursos; não se encerram apenas com tratados, mas com palavras cuidadosamente escolhidas. Em A Chegada, esse princípio é levado ao extremo: um erro de interpretação pode significar o colapso da cooperação internacional e o início de um conflito global.
A linguagem, nesse contexto, é poder e poder mal compreendido torna-se ameaça.
A Linguagem Circular e a Precognição
O ponto central do filme está na linguagem escrita extraterrestre, apresentada de forma circular e não linear. Diferentemente das línguas humanas, organizadas em sequência (início, meio e fim), essa linguagem expressa o tempo como um todo simultâneo.
Aprendê-la não é apenas decifrar símbolos, mas reorganizar a própria cognição. A consequência direta é o surgimento da precognição: a capacidade de acessar eventos futuros não como previsões vagas, mas como experiências cognitivas integradas ao presente.
É por isso que, no filme, os extraterrestres afirmam observar e auxiliar a humanidade há milhões de anos. O planeta deles está morrendo, e o compartilhamento dessa linguagem constitui um ato estratégico de longo prazo: preparar a Terra para lidar com desafios futuros.
A linguagem alienígena funciona, assim, como uma ferramenta de expansão cognitiva e civilizatória.

Sensibilidade, Consciência e Transformação
Em virtude da sensibilidade e da abertura consciencial da Dra. Louise Banks, essa transformação é internalizada ao longo do filme. Ao aprender e assimilar a nova linguagem, ela passa a acessar vislumbres do futuro por meio de precognições e compreende que os extraterrestres estão oferecendo um presente à humanidade: a linguagem dos heptapods.
A partir dessa compreensão, Louise utiliza esse conhecimento para evitar uma guerra iminente.
A cena simbólica do lançamento de seu livro Uma Linguagem Universal — A Tradução da Linguagem dos Heptapods, em um evento mundial com bandeiras de diferentes países e a representação dos próprios extraterrestres, expressa a superação da fragmentação humana por meio do conhecimento compartilhado.
Não se trata de dominação tecnológica, mas do alcance de uma maturidade cognitiva e cosmoética, baseada na cooperação, na responsabilidade e na consciência coletiva.
Parapsiquismo, Consciência e Evolução
Nesse ponto, o filme estabelece uma analogia direta com a história humana. Fenômenos como intuições, premonições e experiências extra-sensoriais acompanham a humanidade desde suas origens.
Surge, então, a pergunta: haveria alguma relação com inteligências extraterrestres ou com dimensões ainda pouco compreendidas da consciência?
Pode-se dizer, metaforicamente, que o planeta sempre esteve dividido entre aqueles que vivenciam tais experiências e aqueles que não as reconhecem. A diferença está no grau de abertura cognitiva, cultural e científica.
Na contemporaneidade, observa-se um crescente interesse científico pelos estados alterados de consciência e pelas inteligências múltiplas. Paralelamente, amplia-se a visibilidade da população com altas habilidades ou superdotação.
Nesse contexto, o filme sugere que sensibilidade ampliada e domínio da linguagem podem indicar uma transição evolutiva em curso.
Linguagem como Base da Civilização
A Chegada propõe uma inversão fundamental: a linguagem não é apenas um produto da civilização, mas a própria condição de sua continuidade. Assim como a ciência, ela estrutura a forma como percebemos o mundo, tomamos decisões e projetamos o futuro.
Ao apresentar uma linguagem capaz de reconfigurar o tempo e ativar a precognição, o filme convida tanto leigos quanto cientistas a reconsiderarem os limites do conhecimento humano e as possibilidades ainda inexploradas da consciência.

Considerações Finais
A mensagem final é clara e profundamente cosmoética: a sobrevivência da humanidade não dependerá apenas de avanços tecnológicos, mas, sobretudo, da capacidade de compreender, integrar e respeitar formas mais complexas de linguagem, consciência e cooperação.
Em um mundo marcado por crises globais, talvez o maior salto evolutivo não esteja no desenvolvimento de novas máquinas, mas na aprendizagem, finalmente de construir diálogo antes de empunhar armas e de ler o futuro com responsabilidade no presente.
Questionamentos:
E se você pudesse ver toda a sua vida, do início ao fim, mudaria alguma coisa?
Aprender pode ser um processo. Evoluir pode ser uma escolha. Nada é imposto, nada é absoluto: tudo começa dentro das possibilidades de cada um. Se até uma árvore cresce em silêncio, dia após dia, com pequenos esforços, o que você pode começar a fazer hoje, agora, para dinamizar a sua própria evolução?
