Fato, verdade e crença: você distingue?

Entre o que acontece, o que se explica e o que se acredita

No dia a dia, costumamos misturar três coisas diferentes sem perceber: o que acontece, o que se explica sobre o que aconteceu e aquilo em que escolhemos acreditar. Essa confusão gera interpretações apressadas e perda de clareza. Separar esses planos não complica a vida — ao contrário, fortalece o autodiscernimento.

O fato, ou fenômeno, é aquilo que ocorre. Algo é vivido, observado ou percebido antes de qualquer explicação. Uma febre surge. Uma dificuldade de aprendizagem aparece. Um sonho marcante é experienciado. Uma mensagem não recebe resposta. O fato simplesmente acontece.

Em seguida, surgem as explicações: a febre é atribuída a uma infecção, a dificuldade a fatores emocionais ou cognitivos, o sonho a processos psicológicos, o silêncio a desinteresse ou falta de tempo. Essas interpretações ajudam a organizar a experiência, mas não são o fato em si. Elas dependem de contexto, conhecimento e ponto de vista — e podem mudar.

Há ainda um terceiro nível: a crença na explicação. É quando se adere a uma dessas leituras e se passa a agir a partir dela. Nesse ponto, não se confirma o acontecimento, mas se escolhe confiar em uma interpretação.

O autodiscernimento entra justamente aí: na capacidade de observar o que se vive, compreender as explicações disponíveis e refletir antes de aceitá-las como verdades relativas, e não como verdades absolutas ou definitivas. Não se trata de experimentar tudo sem critério, nem de rejeitar conhecimentos consolidados, mas de não terceirizar o próprio julgamento.

Quando fato, explicação e crença se confundem, surgem dogmatismos e equívocos. Quando são distinguidos, abre-se espaço para uma relação mais consciente com o aprender, o sentir e o viver.


Refletindo…

O fato acontece. A explicação tenta compreendê-lo. A crença adere a uma interpretação da realidade relativa de ponta.
O autodiscernimento começa quando aprendemos a não confundir esses três planos.