O teste de QI diz tudo?

Identificar não basta: Gardner, Renzulli, Guenther, Feuerstein e o desafio de desenvolver a superdotação

Nós todos a medimos

Em 1924, um educador brasileiro escreveu uma frase que até hoje me faz parar: “embora sem poder dizer com precisão o que é a intelligencia, nós todos a medimos”. Ele foi honesto. Naquela época, o Brasil aplicava testes de inteligência nas escolas sem ter clareza sobre o que, afinal, estava sendo medido.

Quase cem anos depois, a pergunta continua viva. E ela importa muito para quem trabalha com estudantes com altas habilidades ou superdotação (AH/SD). Afinal, se não sabemos bem o que procuramos, como vamos reconhecer, e depois ajudar a crescer, o potencial de alguém?

Este texto nasceu de um artigo que escrevi em AH/SD. Nele, coloquei três estudiosos para conversar: Howard Gardner, Joseph Renzulli e Zenita Guenther (com Carina Rondini). E chamei para a roda um quarto convidado, Reuven Feuerstein, que é o centro da minha pesquisa. Aqui, conto o que encontrei, sem o peso das normas acadêmicas.

Uma ideia guia tudo o que vem a seguir: medir não é compreender. E um número nunca diz o valor de uma pessoa.

Da medida ao desenvolvimento

A história da inteligência começou com réguas. Em 1869, Francis Galton tratou o gênio como algo herdado, e dali nasceu a eugenia. No início do século XX vieram Spearman, com o fator geral (g), e Binet e Simon, com a primeira escala de inteligência. Depois, Terman criou o famoso QI e o ligou, ele mesmo, a ideias eugênicas. Isso nos lembra algo importante: toda ideia de inteligência carrega os valores do seu tempo.

Alguns marcos ajudam a ver o caminho:

QuandoO que aconteceu
1869Galton: o gênio como herança
1904–1916Fator g, escala Binet-Simon e o QI de Terman
1929–1938 · Brasil“Super-normais”, “bem-dotados”, Helena Antipoff e a Sociedade Pestalozzi
1971 · Brasil“Superdotados” entram na lei
1977–1983Renzulli (Três Anéis), Feuerstein (mediação), Gardner (inteligências múltiplas)
2005 · BrasilCriação dos Núcleos de AH/SD (NAAH/S)
2026 · BrasilLei nº 15.436: Política Nacional para Estudantes com AH/SD

Não é uma escada em que cada degrau apaga o anterior. Essas ideias convivem até hoje. Mas há um movimento claro: o campo foi saindo da medida e indo em direção ao desenvolvimento.

A nova política nacional, de 2026, confirma essa virada. Ela prevê identificação precoce, desenvolvimento integral, enriquecimento e aceleração. Ou seja, identificar passa a ser o ponto de partida, e não o ponto de chegada.

Três autores, três perguntas

A descoberta mais bonita do meu estudo foi esta: Gardner, Renzulli e Guenther não estão brigando. Cada um responde a uma pergunta diferente.

Gardner: o que conta como inteligência?

Em 1983, Howard Gardner rompeu com a ideia de uma inteligência única, resumida num número. Ele propôs inteligências múltiplas: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal e, mais tarde, naturalista.

Mas há um detalhe que muita gente esquece: Gardner não aceita qualquer coisa como inteligência. Ele criou oito critérios para avaliar cada candidata. Por exemplo: ela pode ser afetada isoladamente por uma lesão cerebral? Tem uma história evolutiva? Aparece de forma marcante em prodígios? Por isso, o bom senso ou a intuição, por mais admiráveis, não entraram na lista.

Em 1999, ele refinou a definição: inteligência é um potencial que pode ou não ser ativado. Isso depende da cultura, das oportunidades e das escolhas da pessoa, da família e dos professores. Como educadora musical, essa frase me toca muito. Quantos potenciais musicais nunca encontraram um coro?

Renzulli: quando e como a superdotação aparece?

Joseph Renzulli mudou o foco da pessoa para o comportamento. Na sua Concepção dos Três Anéis, a superdotação surge do encontro de três elementos:

  • habilidade acima da média, geral ou específica;
  • envolvimento com a tarefa, ou seja, energia e perseverança;
  • criatividade.

Tudo isso sobre um fundo de personalidade e ambiente. Por isso Renzulli prefere rotular os serviços de que o aluno precisa, e não o aluno como “superdotado” ou “não superdotado”.

O mais rico é que ele não parou na identificação. Criou o Modelo de Enriquecimento Escolar (SEM), com Sally Reis, e a Tríade de Enriquecimento: experiências exploratórias (Tipo I), treino de habilidades, inclusive metacognitivas (Tipo II), e investigação de problemas reais, com produto para um público real (Tipo III). O manual de Deborah Burns e o Renzulli Learning mostram, passo a passo, como guiar o aluno do problema ao produto final.

Guenther e Rondini: como nomear com precisão?

Superdotação, altas habilidades, dotação, talento, habilidade… Será que é tudo a mesma coisa? Zenita Guenther e Carina Rondini perguntaram isso a educadores e encontraram muita confusão. O termo “superdotação” foi o que mais gerou rejeição.

As autoras propõem separar o que é natural do que é adquirido:

TermoEm palavras simples
CapacidadeO poder de aprender e o potencial para agir
DotaçãoCapacidade natural muito elevada em uma área
TalentoDesempenho elevado, que aparece na produção da pessoa
HabilidadeCompetência construída com estudo, exercício e treino
InteligênciaApenas um domínio de capacidade entre outros

Guenther também lembra que o talento se reconhece pela produção e pela atuação da pessoa. Por isso ela defende a observação continuada, e não apenas os testes. Na Metodologia Cedet, um facilitador acompanha cada aluno e constrói com ele um Plano Individual.

Onde eles concordam e onde discordam

Os três concordam em pontos essenciais:

  • Nenhum aceita o QI como medida suficiente das capacidades humanas.
  • Todos veem o potencial como algo que se desenvolve, e não como algo fixo.
  • Todos reconhecem fatores além do cognitivo, como criatividade, perseverança e as inteligências pessoais.

Mas também há tensões, e elas ensinam muito:

  • Amplitude ou precisão? Gardner ampliou a palavra “inteligência”. Guenther e Rondini alertam que, quando um conceito cresce demais, ele perde o sentido.
  • Potencial ou desempenho? Renzulli observa comportamentos em contexto. Guenther separa a dotação, que é potencial, do talento, que é desempenho.
  • Traço ou capacidade? Renzulli inclui a personalidade na explicação da criatividade produtiva. Guenther e Rondini não aceitam traços, como o otimismo, como sinais de capacidade.

No Brasil, Soraia Freitas e Susana Pérez já fizeram essas teorias conversarem na prática. Elas usam Gardner para pensar a inteligência e Renzulli para pensar a superdotação. Assim, é possível reconhecer altas habilidades em qualquer uma das inteligências. Elas lembram ainda algo que nunca podemos esquecer: a pobreza dificulta que as AH/SD apareçam, mas não impede que existam.

Depois da identificação: o risco de ser “esquecido novamente”

Aqui está o ponto que mais me move. Freitas e Pérez fazem um alerta duro: depois de identificado, o aluno pode ser encaminhado ao atendimento especializado e ser “esquecido novamente”.

Identificar não basta. Dar um nome não transforma ninguém. É preciso oferecer experiências que façam o potencial florescer. E é aí que entra Reuven Feuerstein.

O que Feuerstein acrescenta

Feuerstein acreditava que o ser humano é modificável. A inteligência tem componentes herdados, mas não está presa a eles. Para ele, aprender com as experiências exige um mediador: alguém que se coloca entre o estímulo e o aprendiz e dá sentido ao que acontece.

Essa mediação tem três marcas essenciais:

  1. Intencionalidade e reciprocidade: o mediador tem uma intenção clara, e o aprendiz responde a ela.
  2. Transcendência: o que se aprende vai além da situação do momento e serve para outras.
  3. Significado: a experiência ganha valor e sentido para quem aprende.

O objetivo final é lindo: que o aluno aprenda a mediar a si mesmo quando o mediador não estiver mais ali. Isso se aproxima muito da metacognição (pensar sobre o próprio pensamento, como descreveu Flavell) e da autorregulação (o processo pelo qual o aluno transforma suas capacidades em habilidades, segundo Zimmerman).

A minha proposta

Olhando os modelos lado a lado, percebi que eles já pedem essa mediação. O treino metacognitivo do Tipo II de Renzulli, o planejamento de projetos de Burns e o facilitador do Cedet fazem, cada um à sua maneira, um trabalho de mediador.

Por isso, proponho que a mediação seja uma resposta ao risco do aluno “esquecido novamente”. Ela tem duas vantagens:

  • Não depende de um lugar ou de um especialista. Pode acontecer na sala comum, na família, no coral, no atendimento especializado.
  • Busca a autonomia. Prepara o aluno para continuar aprendendo sozinho.

Essa é a hipótese que vou examinar na minha dissertação, com adolescentes e adultos com AH/SD, um público ainda pouco estudado.

A pergunta que fica: uma ilha cercada de oceano

No livro de 1999, Gardner examinou uma possível nona inteligência: a existencial. Seria a capacidade de se situar diante dos limites do cosmos e das grandes questões da vida humana. Ao estudar esse território, ele tocou em experiências que algumas pessoas consideram sobrenaturais. Preferiu entendê-las como capacidades naturais e, com prudência, decidiu não incluir essa inteligência na lista. O fenômeno, disse ele, era desconcertante demais.

Essa porta entreaberta virou, no meu artigo, uma lacuna para pesquisas futuras. Não estudei o tema; apenas registrei pistas, como a Parapsicologia e a Conscienciologia, campos cujo estatuto científico ainda é debatido. A pergunta que me interessa é epistemológica: com que critérios uma experiência humana poderia ser reconhecida como capacidade? Qualquer resposta séria teria de passar pela replicação dos resultados e pelos próprios critérios de Gardner.

O físico Marcelo Gleiser tem uma imagem que me acompanha. Em A ilha do conhecimento, ele compara o que sabemos a uma ilha cercada pelo oceano do desconhecido. Quanto mais a ilha cresce, maior fica a sua costa. Ou seja, cada resposta abre novas perguntas. A lacuna que registrei mora exatamente nessa praia.

Para terminar

Se eu tivesse de resumir tudo em três frases, seriam estas:

  1. Nomear com precisão vem antes de intervir. Sem clareza sobre o que procuramos, não sabemos o que desenvolver.
  2. Identificar é o começo, não o fim. O potencial precisa de experiências, oportunidades e gente que acredite nele.
  3. A mediação é a ponte. Ela liga o que identificamos ao que o aluno pode se tornar, até ele aprender a caminhar sozinho.

Três décadas regendo coros jovens me mostraram isso muitas vezes. O talento raramente aparece pronto. Ele aparece quando alguém oferece a experiência certa, com intenção e sentido, e depois sabe sair do caminho.

E você? Já viu um potencial ser “esquecido”? Ou florescer por causa de um bom mediador? Conte nos comentários.


Este texto é uma versão para o blog do artigo “Inteligência e capacidades humanas: uma análise epistemológica das contribuições de Gardner, Renzulli e Guenther” (2026).

Para ler mais

Feuerstein, R., Feuerstein, R. S., & Falik, L. H. (2019). Além da inteligência: Aprendizagem mediada e a capacidade de mudança do cérebro. Vozes.

Freitas, S. N., & Pérez, S. G. P. B. (2010). Altas habilidades/superdotação: Atendimento especializado. ABPEE.

Gardner, H. (1994). Estruturas da mente: A teoria das inteligências múltiplas. Artes Médicas Sul.

Gardner, H. (2001). Inteligência: Um conceito reformulado. Objetiva.

Gleiser, M. (2014). A ilha do conhecimento: Os limites da ciência e a busca por sentido. Record.

Guenther, Z. C., & Rondini, C. A. (2012). Capacidade, dotação, talento, habilidades: Uma sondagem da conceituação pelo ideário dos educadores. Educação em Revista, 28(1), 237–266.

Pérez, S. G. P. B., & Freitas, S. N. (2016). Manual de identificação de altas habilidades/superdotação. Apprehendere.

Renzulli, J. S. (2004). O que é esta coisa chamada superdotação, e como a desenvolvemos? Educação, 27(1), 75–131.

Rota-Júnior, C., Cirino, S. D., & Gutierrez, L. (2019). Medindo o que não se conhece. Memorandum, 36, 1–18.