O que a Ásia compreendeu sobre educação para altas habilidades/superdotação — e o que o Ocidente está esquecendo
Durante décadas, os Estados Unidos foram considerados referência mundial em inovação, ciência e desenvolvimento tecnológico. Grande parte desse protagonismo nasceu após o chamado “Momento Sputnik”, em 1957, quando o lançamento do satélite soviético levou os americanos a investirem fortemente em educação, especialmente na formação de talentos em matemática, ciência e tecnologia.
Foi nesse contexto que surgiram importantes políticas de educação para superdotados, como a Lei Nacional de Defesa da Educação e, posteriormente, a Lei Jacob Javits, destinada ao financiamento de pesquisas e programas voltados a estudantes com altas habilidades.
Mas algo mudou.
Enquanto os Estados Unidos passaram a concentrar seus esforços em testes padronizados e metas mínimas de proficiência escolar, diversos países asiáticos começaram a investir justamente no oposto: criatividade, pensamento crítico, enriquecimento curricular e desenvolvimento do potencial humano.
China, Singapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan compreenderam algo essencial: o capital humano é a principal riqueza de uma nação.
O artigo “Race to the Future: Innovations in Gifted and Enrichment Education in Asia”, de Kathryn C. Ibata-Arens, mostra como esses países passaram a integrar a educação para superdotados às suas estratégias nacionais de inovação. Não se trata apenas de formar alunos “inteligentes”, mas de desenvolver pessoas capazes de criar, pesquisar, solucionar problemas complexos e impulsionar o avanço científico e tecnológico.
Os dados apresentados impressionam.
As avaliações internacionais do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) , exame da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que analisa como estudantes de 15 anos aplicam conhecimentos em situações reais, demonstram o avanço consistente dos países asiáticos em leitura, matemática e ciências, especialmente nos níveis mais altos de desempenho cognitivo. O mais interessante é que essas avaliações valorizam justamente habilidades de resolução de problemas, raciocínio complexo e pensamento crítico, competências diretamente relacionadas à criatividade e à inovação.
Enquanto isso, os Estados Unidos aparecem em declínio relativo, mesmo tendo sido pioneiros na educação para superdotados. O próprio artigo aponta que políticas como a No Child Left Behind acabaram desviando recursos da educação de enriquecimento para um modelo centrado em “ensinar para o teste”.
Na Ásia, o movimento foi diferente.
A China desenvolveu programas acelerados e classes especiais para estudantes de alta capacidade desde os anos 1970. Hong Kong criou um sistema multifacetado de atendimento, com diferentes níveis de suporte, desde o enriquecimento em sala comum até acompanhamento individualizado para estudantes excepcionalmente superdotados.
A Coreia do Sul, após a crise econômica de 1997, percebeu que precisava investir fortemente em capital humano e acelerou suas políticas de educação para talentos. Singapura talvez seja o exemplo mais estratégico: transformou a educação para superdotados em política nacional de desenvolvimento econômico e científico.
E há algo particularmente interessante nisso tudo: muitos desses países asiáticos não focam apenas em desempenho acadêmico mecânico. Existe uma preocupação crescente com criatividade, investigação, pesquisa, experimentação e formação de liderança intelectual.
Ao mesmo tempo, o artigo também mostra os desafios culturais existentes.
O Japão, por exemplo, apesar de sua excelência tecnológica, ainda enfrenta resistência cultural à ideia de “superdotação”, muitas vezes associada ao elitismo. Isso acabou limitando o desenvolvimento de políticas nacionais mais robustas para estudantes de alta capacidade.
Essa discussão também provoca reflexões importantes para o Brasil.
Ainda tratamos as Altas Habilidades/Superdotação como um tema periférico, pouco compreendido e frequentemente invisível dentro das escolas. Muitos estudantes permanecem anos sem identificação adequada, sem enriquecimento curricular e, em vários casos, camuflando suas habilidades para tentar se adaptar socialmente.
Enquanto alguns países enxergam talentos como patrimônio humano estratégico, aqui ainda enfrentamos mitos, desconhecimento e ausência de políticas consistentes.
A educação para superdotados não deveria ser vista como privilégio, mas como responsabilidade educacional. Desenvolver talentos não significa excluir outros estudantes, significa reconhecer que equidade também envolve atender diferentes necessidades cognitivas, emocionais e criativas.
Talvez a maior lição deixada pelo artigo seja justamente essa: sociedades que desejam inovar precisam aprender a cultivar seus potenciais humanos desde cedo.
Criatividade não nasce do excesso de padronização.
Pensamento crítico não floresce em ambientes que valorizam apenas repetição.
E talentos dificilmente sobrevivem onde precisam constantemente se esconder para serem aceitos.
Ao encerrar o artigo com uma citação atribuída ao filósofo chinês Confúcio, presente na tradição dos Analectos, conjunto de ensinamentos e reflexões associados ao pensador, a autora amplia a reflexão sobre educação, talento e responsabilidade:
“Aqueles que já demonstram sabedoria desde cedo estão em um nível elevado.
Depois vêm os que aprendem pelo estudo.
Em seguida, os que aprendem diante das dificuldades.
E, por fim, aqueles que, mesmo diante delas, não aprendem, porque ainda não se abriram ao conhecimento.”
Em síntese, o pensamento de Confúcio nos lembra que o conhecimento possui níveis de despertar e também de responsabilidade. Quem compreende mais cedo tem maior dever de agir com discernimento, ética e generosidade; quem aprende pelo estudo demonstra abertura e esforço; quem aprende pelas dificuldades transforma a experiência em crescimento; e quem não aprende, mesmo diante dos desafios, ainda precisa abrir-se interiormente ao conhecimento.
Talvez a verdadeira corrida pelo futuro não seja apenas tecnológica.
Talvez seja, antes de tudo, uma corrida pela capacidade de reconhecer, desenvolver e proteger o potencial humano.
Referências
IBATA-ARENS, Kathryn C. Corrida para o Futuro: Inovações na Educação para Superdotados e Enriquecimento na Ásia, e Implicações para os Estados Unidos. Administrative Sciences, v. 2, n. 1, p. 1–25, 2012.~
SAKAGUTI, Paula Mitsuyo Yamasaki; MOREIRA, Laura Ceretta. Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação no Ensino Superior: práticas inclusivas. In: LOUZADA, Juliana Cavalcante de Andrade; MARTINS, Sandra Eli Sartoreto de Oliveira (org.). Inclusão e acessibilidade no Ensino Superior: das políticas às práticas inclusivas. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2025. p. 163-181. DOI: https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-654-1.p163-181.
