Por que escolaridade e capacidade de ler não garantem, necessariamente, a compreensão do que se lê.
Há algum tempo venho estudando o analfabetismo funcional, um tema que me chamou a atenção tanto pela prática com estudantes da rede pública quanto pela observação da minha própria relação com a leitura e a escrita.
Não escrevo como especialista, nem pretendo apresentar respostas definitivas. Meu interesse é compreender melhor por que algumas dificuldades de leitura e interpretação persistem mesmo entre pessoas escolarizadas e, principalmente, que caminhos podem ajudar a desenvolvê-las.
Foi a partir dessas inquietações que surgiu uma pergunta: quantas pessoas convivem com dificuldades de compreensão sem saber exatamente o que está acontecendo ou sem conhecer estratégias que possam ajudá-las?
Ler não significa necessariamente compreender
O analfabetismo funcional não significa simplesmente não saber ler ou escrever. Uma pessoa pode reconhecer palavras, estudar, trabalhar e possuir conhecimentos em diferentes áreas e, ainda assim, encontrar dificuldades para interpretar informações, acompanhar raciocínios mais complexos ou explicar com suas próprias palavras aquilo que acabou de ler.
O problema também costuma ser cercado por julgamentos precipitados. Dificuldades de compreensão podem ser associadas à falta de atenção, preguiça, pouca cultura ou baixa inteligência, embora envolvam fatores muito mais amplos.
Trajetória escolar, oportunidades de leitura, contato com diferentes gêneros textuais, estratégias de aprendizagem e dificuldades específicas podem interferir na compreensão.
Alfabetização, letramento e alfabetismo funcional são conceitos relacionados, mas diferentes. A alfabetização envolve a aprendizagem do sistema de leitura e escrita. O letramento refere-se ao uso dessas habilidades em contextos sociais. Já o alfabetismo funcional diz respeito à capacidade de compreender e utilizar informações escritas, numéricas e gráficas em situações concretas.
Na prática, alguém pode ler uma notícia sem identificar seu argumento principal, assinar um contrato sem compreender plenamente suas consequências ou encontrar dificuldades diante de porcentagens, gráficos, tabelas e instruções mais extensas.
O que os números mostram
No Brasil, o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) avalia pessoas de 15 a 64 anos e organiza os resultados em cinco níveis: analfabeto, rudimentar, elementar, intermediário e proficiente.
Os dados mais recentes indicam que 7% estão no nível analfabeto e 22% no rudimentar. Juntos, esses dois grupos representam 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos — quase três em cada dez pessoas.
Outros 36% encontram-se no nível elementar, 25% no intermediário e apenas 10% no proficiente, nível que envolve a capacidade de analisar argumentos e relacionar criticamente diferentes informações.
Comparações internacionais exigem cautela porque os levantamentos utilizam metodologias distintas. Ainda assim, os dados ajudam a deslocar a discussão da escolaridade formal para outra questão:
O que uma pessoa consegue fazer com aquilo que lê?
Compreensão leitora exige estratégia

Ler não é apenas percorrer palavras com os olhos. A compreensão exige participação ativa do leitor. Em alguns momentos, é necessário diminuir o ritmo, retornar a uma passagem, pesquisar uma palavra, identificar o argumento central ou relacionar informações apresentadas em diferentes pontos do texto.
Um problema comum ocorre quando a leitura continua mesmo depois que a compreensão foi interrompida. O leitor avança, mas deixa de acompanhar o raciocínio. Uma estratégia simples é interromper a leitura após determinado trecho e tentar explicá-lo com palavras próprias. Se isso não for possível, provavelmente há algo que precisa ser retomado.
Esse processo está relacionado à metacognição: a capacidade de observar e acompanhar a própria aprendizagem.
Perguntas como “O que compreendi?”, “Onde perdi o raciocínio?”, “Preciso reler?” ou “Devo procurar outra explicação?” ajudam a transformar a leitura em uma atividade mais consciente.
Mortimer J. Adler e Charles Van Doren desenvolvem essas ideias em Como ler livros, ao defenderem a leitura como uma atividade ativa. Para os autores, o leitor precisa questionar, identificar argumentos, reconhecer dúvidas e verificar se realmente compreendeu o que leu.
Por isso, quantidade de páginas não é sinônimo de qualidade de leitura. Avançar mais devagar, pesquisar conceitos e estabelecer relações pode produzir uma compreensão muito maior do que simplesmente acumular páginas.
A possibilidade de mudança

As contribuições de Reuven Feuerstein oferecem outra perspectiva para pensar as dificuldades de aprendizagem.
Sua teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, associada à Experiência de Aprendizagem Mediada, considera que as capacidades cognitivas não precisam ser entendidas como estruturas completamente rígidas e imutáveis.
Essa perspectiva permite olhar para uma dificuldade não apenas como limitação, mas também como algo que pode ser investigado e trabalhado por meio de estratégias e mediação.
Isso não significa afirmar que qualquer obstáculo possa ser superado apenas pelo esforço individual. Significa reconhecer que uma dificuldade presente não determina necessariamente aquilo que uma pessoa será capaz de fazer ao longo da vida.
O papel da educação

Paulo Freire também ajuda a pensar essa questão. Em Pedagogia da autonomia, aprender não se reduz à transmissão de informações, mas envolve curiosidade, reflexão, participação e construção de autonomia.
Na compreensão leitora, isso significa ir além da pergunta “qual é a resposta correta?”.
O professor pode perguntar como o estudante chegou a determinada resposta, pedir que explique uma ideia com palavras próprias, propor a comparação entre notícias, trabalhar a interpretação de gráficos ou discutir aquilo que um texto afirma e aquilo que apenas sugere.
Embora Freire e Feuerstein partam de referenciais diferentes, ambos permitem pensar o professor não apenas como transmissor de conteúdo, mas como mediador do desenvolvimento da autonomia do estudante.
Dificuldade de leitura não significa baixa inteligência
As capacidades humanas não se manifestam de maneira uniforme. Uma pessoa pode apresentar desempenho elevado em determinada área e dificuldades significativas em outra.
Isso também pode ocorrer entre pessoas com Altas Habilidades ou Superdotação. Uma elevada capacidade musical, matemática, artística, criativa ou de raciocínio pode coexistir com dificuldades relacionadas à leitura ou à escrita.
Há ainda a dupla excepcionalidade (2E), quando Altas Habilidades ou Superdotação coexistem com condições ou diferenças de aprendizagem, como TDAH, TEA, dislexia, discalculia ou disgrafia. Nesses casos, uma capacidade elevada pode ajudar a compensar determinadas dificuldades, enquanto essas mesmas dificuldades podem esconder, camuflar potencialidades.
Isso não significa que toda pessoa superdotada com dificuldade de leitura seja analfabeta funcional. É preciso observar como ela efetivamente compreende e utiliza a informação em sua vida cotidiana.
Por isso, escolaridade, compreensão leitora e inteligência não devem ser tratadas como se fossem a mesma coisa.
Compreender também pode ser aprendido
O analfabetismo funcional mostra que saber ler não basta: é preciso conseguir utilizar aquilo que se lê.
A compreensão pode ser desenvolvida ao longo da vida por meio de estratégias, mediação e atenção ao próprio processo de aprendizagem.
Mais do que uma habilidade escolar, compreender o que se lê amplia a autonomia para pensar, aprender e fazer escolhas.
Referências
AÇÃO EDUCATIVA; CONHECIMENTO SOCIAL. Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024. São Paulo, 2025.
ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente. São Paulo: É Realizações, 2011.
FEUERSTEIN, Reuven; FEUERSTEIN, Refael S.; FALIK, Louis H. Além da inteligência: aprendizagem mediada e a capacidade de mudança do cérebro. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 73. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
NATIONAL ASSOCIATION FOR GIFTED CHILDREN. Twice exceptionality. Washington, DC: NAGC, 2025.
UNICEF BRASIL. “Analfabetismo funcional não apresenta melhora e alcança 29% dos brasileiros, mesmo patamar de 2018, aponta novo levantamento do Inaf.” Brasília, DF, 5 maio 2025.
